Um Cálice de Porto
Teatro Campo AlegreTrata-se de um manuscrito apócrifo encontrado nas catacumbas da Câmara Municipal do Porto, perdido entre as folhas de uma acta que reporta os prejuízos da Fundação Ciência e Desenvolvimento.
Intitulado Um Cálice de porto, o manuscrito adopta o título da mais popular peça de teatro alguma vez levada à cena no burgo portuense, nos inícios da década de 80 do século tansacto, pela Companhia Seiva Trupe. Nota-se, porém, uma pequena mas decisiva nuance: o registo de comédia desbragada que caracterizou a peça de 1982, muito próximo do "teatro de revista", surge neste manuscrito de descoberta recente com laivos de tragédia grega. Eis as suas passagens mais significativas, uma vez que para a eventual publicação de outros excertos (que se afiguravam bem mais apetitosos, mas eram politicamente inconvenientes, segundo nos confessaram) não foi possivel obter permissão prévia do "lápis azul" autárquico em tempo útil.
NOBRE PRESIDENTE - Maldito sejais, vis criaturas, que sob o manto diáfano das artes do palco fazeis politica, subscrevendo abaixo-assinados contra mim, juntando-vos à voz dos meus opositores, e participando em iniciativas públicas hóstis à gloriosa caminhada regeneradora da invicta cidade!
NOBRE SGUIDOR - Exemplar é o teu zelo, nobre presidente! Mal ouviste falar em cultura, puxaste logo da máquina calculadora! Bem hajas! E o povo te preserve por muitos e bons anos!
NOBRE PRESIDENTE - Obrigado, meu bom amigo, que esta guerra já é antiga, como sabeis, dos tempos imemoriais em que tentei acabar com o FITEI. E agora dão-me prejuízo, lá para as bandas do Campo Alegre, ocupando-me em permanêcia um espaço que podia ter mais nobres funções!
NOBRE SEGUIDOR - E que funções seriam essas, nobre Presidente?
NOBRE PRESIDENTE - Sei lá...espectáculos das tunas académicas, festas da Rádio Festival, ciclos de cinema com os filmes portugueses dos anos 40 e 50, encontros de bandas filarmónicas...enfim, projectos mil! Com uma dinâmica imparável, em tudo idêntica à fabulosa actividade do Rivoli...que não está à venda! Que não está à venda! O Rivoli não está à venda!
NOBRE SEGUIDOR - Pois não, nobre presidente! Isso foi abjecta ignomínia de opositores desesperados, em não menos ignominioso suporte editorial. Isso é que foi!
CORO - Há sempre um pouco de razão na loucura e um pouco de loucura na razão...
NOBRE PRESIDENTE - Voltando ao triste Campo Alegre, sabeis que andei todo o anterior mandato a ver como poderia anular tão leonino contrato...
NOBRE SEGUIDOR - Tristes foram teus fados, triste ventura a tua!
NOBRE PRESIDENTE - Essa trupe de saltimbancos, em cujas veias corre a seiva dos mancomunados, essa seiva trupe - e torpe! - que me consome o espírito e a bolsa,prometo tirá-los dali, das quatro paredes em que se alojaram ao abrigo de tão indigno contrato! Se alguém tiver ideia de como é que se pode desembrulhá-lo, agradeço...
NOBRE SEGUIDOR - Tristes são os teus fados, triste ventura a tua!
NOBRE OPOSITOR - Mas vós esvaziastes intencionalmente a produção própria do Campo Alegre, quando no tempo do nosso governo a programação abarcava dança, artes plásticas, cinema e música...
NOBRE SEGUIDOR - Tristes foram teus fados, triste ventura a sua!
OUTRO OPOSITOR - Estais é a inventar mais uma guerra entre a câmara e uma instituição da cidade, a olhar estes organismos como advesários em vez de os verdes como aliados. Não servia esse contrato - que agora vituperais - para travar o êxodo de instituições culturais para fora da cidade?
NOBRE PESIDENTE - Pergunta insidiosa, essa que fazeis! pois é a mim, na verdade, que quereis empurrar para fora da cidade!
CORO - Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, todo o mundo é composto de mudança! Quem gosta, gosta, quem não gosta, dança!
NOVO OPOSITOR - Mas deveis ser gestor dos equipamentos ou instrumentos de promoção da política cultural da cidade?
NOBRE PRESIDENTE - Outra pergunta insidiosa, essa que fazeis! Ainda por cima vinda de vós, que durante quatro anos me apoiastes a ira regeneradora! Lembrais-vos que venci a contenda com maioria absoluta?
CORO - Há sempre um pouco de razão na loucura e um pouco de loucura na razão. Agora é tarde, Inês é morta...






