quarta-feira, novembro 23, 2005

Passeio...



Depois de ter andado a passear por este quadro, voltei, foi interessante, mas gosto mais deste lado...

terça-feira, novembro 22, 2005

Árvore

A árvore. É estranha a devoção que tenho pela árvore que mora na minha rua... é das poucas coisas que a habitam com vida, já que as outras sobrevivem com vida de morte. De tronco generoso, a árvore (claro!) __ evolui em direcção ao céu de forma elegante com nuance à direita, como o sinal aos seus pés plantado obriga, mas por pouco tempo: ela endireita-se e abre vários braços ao céu, nascendo nos antebraços, se calhar arte e abraços, novos braços, que terminam em dedos ávidos de tudo e de todos.
Nas suas costas... _________ Que digo eu?!
As árvores não têm costas porque vivem sempre ____________ de fronte ao sol.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Outro lado

Do outro lado também há assentos vazios.

Em contin�ncias

16
(pequeno) manifesto contra a violência quotidiana


o silêncio dos amigos
é como o ruído de fundo
do universo:
chega até nós
insidiosamente
e sempre muito mais tarde
por silêncio, refiro-me
não apenas à aparente indiferença
- que, dessa, o mundo
está cheio, embora doa mais
naqueles em que depositámos
alguma esperança.
por silêncio quero dizer
o inverso do amor,
esta agressão diária
de esperarmos uma voz
- não sabemos qual,
mas teria de ser intensa,
essencial, inesquecível –
que jamais aparece.
e no entanto muitas vezes
chegam mensagens oportunas,
sinais de presença,
pequenas contribuições
de amistosa camaradagem,
frases curtas ou longas,
secas ou comovidas,
juntamente com postais
e panfletos, propaganda diversa,
burocracias e pedidos
que nos interrompem:
a colheita heterogénea do carteiro,
a derrama anónima dos mails.
aqui, a paisagem da minha insónia
contém muitos pássaros,
algumas luzes ainda acesas da noite,
as silhuetas dos pinheiros
descrevendo curvas, num plano alto,
contra a circulação horizontal das nuvens.
e subitamente a lua, fina,
como uma advertência superior.
os pássaros, claro, são apenas sons,
milhares de chilreios diferentes
que anunciam a sua própria ausência.
os amigos, aqueles que nos encarniçamos
a chamar assim, talvez mesmo
contra a vontade deles, não sofrem
de insónias: dormem o sono tranquilo
de todos os que se voltaram
para o outro lado, e cumprem os ritmos
justos da vida.
estão mortos por antecipação,
mas não sabem; e se soubessem,
pouco lhes importava.
o apelo do poeta ingénuo
como o ruído de fundo do universo,
só chega muito mais tarde,
fora de horas, a despropósito,
e não serve para nada:
como as maçãs dispostas na fruteira,
está apenas ali desde ontem,
desde sempre, entre o sono
dos móveis, e das salas vazias,
dos aparelhos inúteis,
dos jornais ultrapassados,
e dos livros por ler


Victor Oliveira Jorge in O Feliz regresso dos Artistas a CasaEm contin�ncias