Em continências
De tanto nos contermos, de tanto em continências nos mantermos, este é o espaço onde podemos baixar a guarda, respirar fundo e extravasar pensamentos de olhos fechados.
quarta-feira, janeiro 25, 2006
Acerca do lugar na memória...

"Embora já tivesse tido diferente opinião, não gosto de me lembrar no intuito de reviver.
É como comer um belo bife requentado: sabe sempre aquém do que deveria ser.
Por outro lado, é uma forma hábil de se dizer que se ama, escudado pelo tempo, incólume pelo que se vem dito, sobre o diamante prumado de arestas incertas, com o hálito de língua em sangue, em cada verba.
No entanto, não gosto de me lembrar no intuito de reviver:
Quero estar na extremidade do hálito!"
extracto do diário íntimo de um fauno desconhecido
segunda-feira, janeiro 23, 2006
Coração Polar
Ao presidente poeta
do poeta
I
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande e quação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha.
Há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel Alegre
domingo, janeiro 22, 2006
sexta-feira, janeiro 20, 2006
segunda-feira, janeiro 16, 2006
Devaneio...

Como não entrar se deixas a porta entreaberta?
Convite ou não, ela deixa passar a luz de um caminho talvez melhor... falsas esperanças a quem nunca quiseste dar uma só, mesmo só para teu belo prazer, nos dias em que a existência pesa mais....
Solidão de quem se serve do amor dos outros, solidão de quem sofre, apenas solidão.
A solidão traduz-se por uma sensação insuportável de um peso desmedido, transcrito da existência para as nossas costas, plasmando-se nas palmas das mãos, cheias de voz e sangue.
sábado, janeiro 14, 2006
Tenho saudades...
Tenho saudades de quando não sabia ler, de não fumar,de não amar, de só dizer mãmã e pãpã, de não trabalhar, de não engordar, de não pagar, de não ter insónias, de não conheçer mentcaptos, de não conheçer psiquiatras, de não tomar café, de não saber a crueldade da humanidade, de não ter exigencias, de não saber nada, tenho saudades...
quinta-feira, janeiro 12, 2006
Vontade
"Não posso, não irei, não quero amar-te mais. Dito assim, só parece simples.E é simples, pois esta é face da falsa vontade, e que ninguém eleva a crença.
A vontade não é explícita; é feita de silêncios, entre o não e o sim, entre as dunas e as docas, entreolhares, que feitos garrotes te puxam para mim, me levam para ti transmutam-me para o alter-ego, mais vivo, logo mais letal. A vontade nasce de dentro, mas não é mais do que o retorno - resposta de algo realmente estimulante de fora: o Outro.A vontade não é explícita; é muda, ganha relevo nos detalhes dos gestos, que expõem as linhas guia, que apontam uma só interpretação: amo-te e essa é a minha vontade!"
extracto do diário íntimo de um fauno desconhecido
Coisa Amar
Coisa Amar
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
MANUEL ALEGRE
terça-feira, janeiro 10, 2006
Solidão
Chico Buarque
"Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear oufazer sexo... Isto é carência!Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entesqueridos que não podem mais voltar... Isto é saudade!Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes. pararealinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio!Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõecompulsoriamente... Isto é um princípio da natureza!Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância!Solidão é muito mais do que isto...SOLIDÃO é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pelanossa alma."Em contin�ncias
Date: Tue, 3 Jan 2006 11:06:01 -0000
ENTREVISTA DO CHICO BUARQUE, ONDE ELE DEFINIU "SOLIDÃO"
Chico Buarque






