quarta-feira, novembro 16, 2005

Em contin�ncias

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(pequeno) manifesto contra a violência quotidiana


o silêncio dos amigos
é como o ruído de fundo
do universo:
chega até nós
insidiosamente
e sempre muito mais tarde
por silêncio, refiro-me
não apenas à aparente indiferença
- que, dessa, o mundo
está cheio, embora doa mais
naqueles em que depositámos
alguma esperança.
por silêncio quero dizer
o inverso do amor,
esta agressão diária
de esperarmos uma voz
- não sabemos qual,
mas teria de ser intensa,
essencial, inesquecível –
que jamais aparece.
e no entanto muitas vezes
chegam mensagens oportunas,
sinais de presença,
pequenas contribuições
de amistosa camaradagem,
frases curtas ou longas,
secas ou comovidas,
juntamente com postais
e panfletos, propaganda diversa,
burocracias e pedidos
que nos interrompem:
a colheita heterogénea do carteiro,
a derrama anónima dos mails.
aqui, a paisagem da minha insónia
contém muitos pássaros,
algumas luzes ainda acesas da noite,
as silhuetas dos pinheiros
descrevendo curvas, num plano alto,
contra a circulação horizontal das nuvens.
e subitamente a lua, fina,
como uma advertência superior.
os pássaros, claro, são apenas sons,
milhares de chilreios diferentes
que anunciam a sua própria ausência.
os amigos, aqueles que nos encarniçamos
a chamar assim, talvez mesmo
contra a vontade deles, não sofrem
de insónias: dormem o sono tranquilo
de todos os que se voltaram
para o outro lado, e cumprem os ritmos
justos da vida.
estão mortos por antecipação,
mas não sabem; e se soubessem,
pouco lhes importava.
o apelo do poeta ingénuo
como o ruído de fundo do universo,
só chega muito mais tarde,
fora de horas, a despropósito,
e não serve para nada:
como as maçãs dispostas na fruteira,
está apenas ali desde ontem,
desde sempre, entre o sono
dos móveis, e das salas vazias,
dos aparelhos inúteis,
dos jornais ultrapassados,
e dos livros por ler


Victor Oliveira Jorge in O Feliz regresso dos Artistas a CasaEm contin�ncias