QUEIXUME DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS
Dão-nos um lirio e um canivete
e uma alma para irmos à escola
mais um letreiro que promete
raízes, astes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência
Dão-nos o prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras dos avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra para o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
sonos vazios despovoados
de personagens do assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
p`ra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem a morte
Poema de NATÁLIA CORREIA
Música JOSÉ MÁRIO BRANCO
Album MUDAM-SE OS TEMPOS MUDAM-SE AS VONTADES
( França década de 70 aquando o músico e cantor se encontrava no exilo assim como muitos dos que hoje nos atrofiam, penso que o José Mário Branco nunca pensou que " companheiros do exilo " se tornassem tão presos ao poder e gerassem isto que temos que e que querem à força que sejamos ).
